The Boys: a desconstrução dos heróis em uma sátira imperdível (crítica)

  • por Minha Série em 30/07/2019 - 11:50

O Amazon Prime Video disponibilizou na sexta-feira (26) todos os oito episódios de sua nova série exclusiva. The Boys, baseada nas histórias em quadrinhos de Garth Ennis e Darick Robertson, mostra o que acontece quando os super-heróis destroçam limites éticos e morais em prol de seus próprios interesses.

Tudo começa quando Hughie “Mijão” (Jack Quaid, filho dos atores Dennis Quaid e Meg Ryan), um funcionário de loja de eletrônicos vê sua namorada explodir — literalmente — na sua frente, por conta da corrida inconsequente do velocista Trem A (Jessie T. Usher).

Fonte: Amazon Prime Video/Reprodução

Meio sem ter o que fazer, ele conhece o agente federal Billy Carniceiro (Karl Urban), que propõe então uma “vendetta” contra “Os Sete”, uma espécie de “Liga da Justiça sem pudores”, composta por Patriota (Antony Starr), Rainha Maeve (Dominique McElligott), Oceano (Chance Crawford), Sombra Negra (Nathan Mitchell), Translúcido (que nos gibis era Jack de Júpiter, aqui interpretado por Alex Hassell) e a novata Estelar (Erin Moriarty).

O Hughie "Mijão" original, baseado no ator Simon Pegg. Fonte: Dynamite Comics/Reprodução

Para enfrentar os poderosos, Billy une Hughie com o especialista em armas Francês (Tomer Capon), o investigador Leite Materno (Laz Alonso) e a esquisita e letal Kimiko (ou Fêmea no original, vivida por Karen Fukuhara). Vale destacar que “Mijão” tem o visual bem diferente do que tem nas revistas, onde ele se parece com Simon Pegg, que aqui aparece como seu pai — em uma homenagem à versão original.

Quadrinhos foram banidos da DC Comics

Bem, antes de falar da série, vou apenas contextualizar sua criação e explicar por que ela acabou se tornando mais atual nos dias de hoje do que quando foi lançada. Garth Ennis fez muito sucesso nos anos 90 em seus arcos sombrios e violentos em Hellblazer e Preacher. Ele era considerado uma mistura do Quentin Tarantino de Pulp Fiction e do Guy Ritchie de Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes.

Fonte: Dynamite Comics/Reprodução

Depois de destilar seu sarcasmo e humor negro nas páginas de Hitman, ele decidiu então criar The Boys, ao lado de Darick Robertson, na mesma DC Comics, só que via selo Wildstorm. Acontece que a editora parecia não estar muito ciente do que viria pela frente. As primeiras edições de The Boys chocaram a sociedade com ultraviolência, estupro e depravação, cenas explícitas de uso de drogas pesadas e várias referências nada agradáveis à Liga da Justiça.

Todos dizem que a saída de The Boys da DC Comics foi amigável, mas a verdade é que ela foi imediatamente banida do repertório da companhia na edição número 6 e depois foi para a Dynamite Comics em 2007, onde ficou até o final de suas 72 edições, em 2012.

O tom correto

Os produtores Evan Goldberg e Seth Rogen usaram a mesma fórmula de sucesso de Preacher para a adaptação, limando o que seria exageradamente forçado e irrelevante e se concentrando em pontos que puderam ser atualizados aos dias e à audiência de hoje. A trama e o tom continuam sendo muito violentos, pervertidos e muitas vezes tão depravados quanto a original, mas Hughie sofreu grande alteração e está mais relacionável com quem assiste — aliás ele até mesmo está amável.

Esse contraste do mocinho que precisa se tornar vilão lembra um pouco Breaking Bad e o humor sempre ajuda a tornar o absurdo em uma grande diversão — veja a participação de Haley Joel Osment. O extremismo visto no comportamento do Patriota, o machismo de Oceano e a influência de eventos recentes de empoderamento feminino e do combate à cultura do estupro reverberam de maneira muito bem-vinda e até mesmo fazem mais sentido do que o roteiro original das HQs.

Fonte: Amazon Prime Video/Reprodução

Some isso à construção da realidade por aparências e instantaneidade das redes sociais — algo que também não era muito presente na época do lançamento das revistas — e você tem aí um material que une bem ação e comédia com o gênero de super-heróis.

Atores veteranos fazem a diferença

Elisabeth Shue e Karl Urban são contrapontos nas duas equipes e são a referência de boa atuação nos dois grupos. Suas presenças fazem com que o Hughie e Estelar brilhem ainda mais e a engraçada química entre Leite Materno e o Francês garantem boas risadas. O cinismo do Patriota também está muito bem caracterizado por Antony Starr.

O que deixa bastante a desejar são os coadjuvantes dos “Sete", principalmente Trem A e Oceano, que até mesmo parecem atores amadores em diversas sequências. Nada que estrague toda a experiência, mas poderiam ser melhores.

Fonte: Amazon Prime Video/Reprodução

Os efeitos especiais e direção lembram muito o trabalho desenvolvido em Preacher, o que não chega a ser espetacular, mas é sólido e convincente — adequado, na medida, para a série.

Vale a pena?

The Boys é como se você pegasse Watchmen e misturasse com Pulp Fiction e Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes. Tem a mesma proposta de desconstruir os heróis e, se aqui falta a sofisticação de Alan Moore e Dave Gibbons, sobra em diversão e várias referências aos superseres da DC Comics. Os capítulos têm uma narrativa bem dosada, que vão fazer com que você maratone facilmente todos os oitos capítulos em um só dia.

Fonte: Amazon Prime Video/Reprodução

É para lá de indicada para quem gosta de super-heróis e ainda mais para quem não gosta: afinal, aqui eles são os vilões e apanham — e muito — para pessoas normais de carne e osso, como eu e você.

A matéria "The Boys desconstrói, mutila e satiriza os heróis com mérito (crítica)" foi escrita por Claudio Yuge para o TecMundo, um site da empresa NZN assim como o Minha Série.

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