Climão: 10 roteiristas que odiaram a produção de seus próprios filmes

  • por Minha Série em 07/07/2018 - 16:37

Nem tudo são flores nos bastidores de Hollywood. Aliás, às vezes, o que mais existe por trás dos holofotes dos grandes estúdios é confusão, especialmente quando o assunto envolve estrelas e seus caprichos vaidosos. Apesar disso, as tretas também acontecem entre outros membros das equipes de cinema.

Reunimos 10 ocasiões em que diferentes roteiristas simplesmente odiaram o resultado final das produções para as quais trabalharam – incluindo casos em que, acredite, a briga foi tão feia que eles sequer quiseram ter seus nomes listados nos créditos. Confira!

1. Kelly Marcel, de Cinquenta Tons de Cinza (2015)

No início de 2013, quando comprou os direitos do livro “Cinquenta Tons de Cinza” com a ideia de criar uma nova franquia para o cinema, a Universal Pictures convidou Kelly Marcel (Walt nos Bastidores de Mary Poppins) para assinar a adaptação. O estúdio prometeu à roteirista que ela teria liberdade para explorar os temas e personagens, mas a palavra final sobre elenco, direção e roteiro acabou ficando com E. L. James, autor do livro. Como você já deve ter deduzido, James não gostou das propostas de Marcel para o longa e barrou uma série de ideias da roteirista.

Quando participou de uma edição do podcast de Bret Easton Ellis, em 2015, Marcel declarou ter ficado surpresa. “Eu pretendia fazer algo diferente, e tanto o estúdio quanto os produtores ficaram bastante animados com minhas ideias. O filme seria muito sexy se não houvesse tantos diálogos”, disse. A roteirista nem se deu ao trabalho de assistir à obra, de tão irritada. Naturalmente, não voltou para dar continuidade à franquia. “Não posso assistir sem me sentir magoada”, admitiu. Que climão!

2. Quentin Tarantino, de Assassinos por Natureza (1994)

No começo da década de 90, Quentin Tarantino vendeu o roteiro de Assassinos por Natureza para Oliver Stone e aplicou o dinheiro na produção de Cães de Aluguel, seu trabalho de estreia como diretor, que chegou aos cinemas em 1992. Dois anos depois, Stone finalmente lançou Assassinos por Natureza, com Woody Harrelson e Juliette Lewis como protagonistas. O filme foi um sucesso de bilheteria, mas as alterações ao roteiro foram tão grandes que Tarantino simplesmente o desprezou. “Eu odeio esse filme!”, disse ao jornal britânico Telegraph em 2013. “Se você gosta do que eu faço, não assista a isso”, desabafou irritado.

A treta não parou por aí. Anos depois do lançamento do longa, os produtores processaram Tarantino quando o diretor tentou publicar um livro com o roteiro original de Assassinos por Natureza – algo que ele já tinha feito com Amor à Queima-Roupa. Para os produtores, Tarantino perdeu os direitos a partir do momento em que fechou a venda. Apesar da alegação, quem levou a melhor nos tribunais foi o diretor, que ganhou a causa.

3. Paul Rudnick, de Mudança de Hábito (1992)

Durante o fim dos anos 80, o dramaturgo e escritor Paul Rudnick decidiu se lançar também como roteirista. Quem deu um crédito ao talento dele foi a Touchstone Pictures, da Walt Disney Company, que topou produzir Mudança de Hábito. Inicialmente, o papel principal havia sido pensado para Bette Midler (O Clube das Desquitadas), mas a atriz passou a oportunidade adiante, e quem assumiu foi Whoopi Goldberg.

Longos meses se passaram em um interminável vai-e-vem de mudanças no roteiro, até que Rudnick se irritou e, insatisfeito com o rumo das coisas, pediu à Disney que não o creditasse como roteirista. Em vez do seu nome original, ele assinou o longa como Joseph Howard. “Bom ou ruim, aquele já não era mais um trabalho meu”, disse em entrevista à revista The New Yorker em 2009. “O estúdio não estava satisfeito, e eu cansei de receber ligações urgentes pedindo que reconsiderasse minha posição e assistisse à fita com a edição final. Eu me recusei; afinal, mesmo que gostasse, aquele já não era o meu filme”, justificou Rudnick.

4. Bret Easton Ellis, de Informers: Geração Perdida (2008)

Bret Easton Ellis colaborou diretamente com a criação do roteiro de Informers: Geração Perdida, adaptação do seu próprio livro – que no Brasil foi publicado pela Editora Rocco com o título “Os Informantes” –, mas isso não foi suficiente para que ele ficasse satisfeito com o resultado final. Ellis se decepcionou com a versão cinematográfica da obra porque, na sua opinião, ela perdeu o toque de humor que tinha e se transformou em algo excessivamente melodramático.

O escritor atribuiu o deslize ao diretor australiano Gregor Jordan. “Precisávamos de alguém que tivesse crescido aqui [nos Estados Unidos], alguém que tivesse um senso de humor próximo ao de [Robert] Altman. O roteiro é divertido, mas o filme não. Há cenas que deveriam ser engraçadas e até foram rodadas exatamente como as escrevemos, mas acabaram sendo mal dirigidas. Foi frustrante assistir ao corte final e ver que amputaram a obra. Acho que Jordan estava mirando em outra coisa – talvez uma novela australiana. Falhamos na nossa comunicação”, disse Ellis. “O filme não funciona por uma série de motivos, e nenhum deles é de minha responsabilidade”, desabafou.

5. Joe Eszterhas, de Jade (1995)

Quando Instinto Selvagem estourou, nos anos 90, o roteirista Joe Eszterhas virou o queridinho de Hollywood. Seus projetos faziam tanto sucesso que ele fechou contratos milionários – um deles com a Paramount Pictures, que pagou US$ 1,5 milhão pelo roteiro de Jade.

O que Eszterhas não esperava era que William Friedkin, escalado para dirigir o filme, reescreveria diversas partes da obra sem consultá-lo. “Eu fiquei perplexo, era incapaz de acreditar naquilo”, revelou o roteirista. Em sua autobiografia, “Hollywood Animal”, Eszterhas conta que só teve noção do que havia sido feito quando assistiu a Jade pela primeira vez. “Havia diálogos ali que não só não eram meus, como eram simplesmente péssimos”, disse.

6. Kurt Sutter, de O Justiceiro: Em Zona de Guerra (2008)

Muito antes de O Justiceiro, da Marvel, voltar às telas em formato de série, em 2017, Kurt Sutter, criador de Filhos da Anarquia, foi contratado para escrever O Justiceiro: Em Zona de Guerra, que seria estrelado por Thomas Jane e John Travolta. Em 2007, quando já tinha um roteiro cheio de novidades à mão, Sutter foi surpreendido pela saída de Jane do projeto e pelo pedido da Marvel para que a história não fugisse tanto do original, escrito por Frank Castle.

O resultado foi algo tão diferente do que Sutter havia planejado que o roteirista pediu que seu nome não fosse incluído nos créditos. “Eu reescrevi completamente o rascunho que havia sido preparado por Nick Santora. Achei que O Justiceiro merecia mais do que uma adaptação do livro para os cinemas. Para mim, não tínhamos de seguir a fórmula batida dos filmes de super-heróis, mas parece que fui o único a pensar assim, na época”, conta Sutter.

7. J. D. Shapiro, de A Reconquista (2000)

A Reconquista é uma adaptação do livro “Battlefield Earth: A Saga of the Year 3000”, de 1982, escrito por Ron Hubbard, fundador da Cientologia. A encomenda do roteiro a J. D. Shapiro partiu de John Travolta, que também estrelou o filme, e os desentendimentos começaram quando Shapiro se recusou a fazer mudanças no que havia preparado – algo mais obscuro do que o livro. O roteirista foi demitido, mas os créditos foram mantidos; afinal, muito do que ele havia escrito acabou sendo aproveitado.

Para o desgosto dele, no entanto, A Reconquista entrou para a lista dos piores filmes da década, o que fez com que o roteirista escrevesse – acredite – uma carta se desculpando por seu envolvimento na produção. O texto, publicado em 2010 no New York Post, dizia: “Antes de qualquer coisa, quero pedir desculpas a todos que foram assistir ao filme A Reconquista. Ele não saiu como eu havia planejado, juro. Ninguém faz uma porcaria daquelas de maneira consciente. Aliás, é até injusto dizer isso; afinal, se fosse de fato uma porcaria, as pessoas ainda desejariam vê-lo”, esbravejou. Bem-humorado, Shapiro fez questão de comparecer à cerimônia do Framboesa de Ouro, que premiou A Reconquista com o título de Pior Filme de 2001.

8. Gore Vidal, de Calígula (1979)

Gore Vidal recebeu uma bolada para escrever o roteiro de Calígula, mas abandonou o projeto depois de considerar que ele havia sido completamente distorcido. Para o roteirista, o longa, produzido por Bob Guccione, fundador da revista masculina Penthouse, deixou de ser uma sátira política para ganhar ares de filme adulto. Vidal ficou tão irritado com os desmandos do produtor que exigiu que seu nome não fosse sequer creditado. E mais: Tinto Brass, que atuou como diretor da obra, foi outro a se desentender com Guccione e deixar as filmagens. Será que sobrou alguém?

9. Lana e Lilly Wachowski, de Assassinos (1995)

No meio dos anos 90, Lana e Lilly Wachowski faturaram US$ 2 milhões com a venda dos roteiros de Assassinos e Matrix para o produtor Joel Silver. O primeiro filme, que seria estrelado por Sylvester Stallone e Antonio Banderas e dirigido por Richard Donner, foi totalmente reescrito por Brian Helgeland, um roteirista convidado por Donner para desfazer o tom excessivamente artístico e obscuro criado pelas irmãs Wachowski no texto original – e isso apesar de Assassinos ser uma das produções mais comentadas da época, justamente porque o roteiro havia agradado os críticos.

Helgeland acabou produzindo um típico roteiro de ação, o que fez com que as autoras do texto inicial solicitassem a retirada de seus nomes do projeto. À época, o Sindicato dos Roteiristas dos Estados Unidos se posicionou contra o pedido, fato que fez com que as irmãs Wachowski passassem a ser mais exigentes com o controle que detinham sobre suas obras. Em uma entrevista concedida em 2003, Lana explicou: “o filme não é verdadeiramente baseado no nosso roteiro. O que nos incomoda é o fato de as pessoas nos culparem pelo que veem na tela, quando na verdade o responsável é Richard Donner. Ninguém consegue impedi-lo de fazer o que quer com os filmes que dirige; ou seja, nossos nomes estarão eternamente associados a algo que não fizemos”.

10. Guinevere Turner, de BloodRayne (2005)

Guinevere Turner (Psicopata Americano, O Par Perfeito, Bettie Page, The L Word) é conhecida por produzir roteiros com personagens profundos e provocadores. Apesar do histórico invejável, causou espanto que Turner tivesse aceitado associar seu nome ao do diretor alemão Uwe Boll, cuja reputação nunca foi lá muito positiva, para escrever o roteiro de BloodRayne, longa baseado no jogo de videogame que leva o mesmo nome. Turner, como já era de se esperar, fez um excelente trabalho, mas Boll, conhecido como um dos piores diretores da face da Terra, conseguiu estragar mais essa produção.

Embora tenha ficado encantado com o roteiro preparado por Turner, o alemão resolveu permitir que, a partir de um determinado ponto das filmagens, os atores improvisassem suas falas. O resultado não podia ser outro: sofrível. Apesar disso, Guinevere Turner fez questão de levar tudo na esportiva. “Eu ri muito na premiere em Los Angeles. É uma produção de US$ 25 milhões que consegue ser simplesmente terrível! É o pior filme de todos os tempos!”, admitiu em meio a risos em um depoimento ao documentário Tales From The Script, de 2009.

Este texto foi escrito por Rodrigo Sánchez via nexperts.

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