Spoilers não estragam tudo: saiba como seu cérebro acompanha uma história

  • por Minha Série em 05/06/2018 - 08:00

Escrever é um arte, sim. Mas há muita técnica envolvida no processo: os roteiristas de uma série sabem muito bem como deixar você roendo as unhas na ponta do sofá. E, ao contrário do que bastante gente pensa, spoilers não estragam completamente a experiência.

Ao menos, é o que defende Vera Tobin, uma cientista e professora da Universidade de Case Western Reserve. Ela estuda as relações entre nosso sistema cognitivo e narrativas — ou seja, a forma como o cérebro humano reage diante de uma história. Segundo ela, todos os filmes (assim como todas as histórias) tendem a explorar a tendência humana de tentar antecipar o que vem em seguida. E é por isso que nos deliciamos tanto com as reviravoltas na trama — os famosos plot twists.

Nosso cérebro cria uma "trilha" ao adquirir novas informações, tentando adivinhar o que vai acontecer na sequência. E os bons roteiristas sabem explorar essa nossa capacidade, mesmo que inconscientemente.

Como nosso cérebro lida com novas informações?

Existe o chamado "Percurso do Conhecimento", que faz com que você receba uma informação e automaticamente pense no que vai acontecer depois. Por exemplo, se você escolhe um livro ou um filme de mistério, já imagina algumas coisas que acontecerão: provavelmente haverá um crime e um detetive, mas dificilmente terá cenas de sexo, por exemplo. Contudo, por mais que você já saiba alguns pontos, obviamente espera que a trama não seja completamente previsível.

As informações iniciais que recebemos vão ser a base da nossa análise, e os roteiristas sabem disso. Eles vão nos dando algumas pistas do que vai acontecer, sabendo que muitas delas não vão ser percebidas. E então, quando apresentarem um clímax, esse caminho vai ter sido construído em nossa mente. Assim, sua expectativa vai crescendo e crescendo, até você ver que estava certo o tempo todo — e saborear esse momento.

Ou então, podem fazer o inverso: uma ferramenta muito comum é dar falsas expectativas e acabar indo pelo caminho contrário. Pense em um filme ou uma série em que um personagem estava aparentemente morto — você o viu ser atingido, e os personagens agiam como se ele estivesse morto, guiando você para o mesmo raciocínio, mesmo que não tenha de fato visto a morte. E então, ele aparece vivo, contrariando o que se pensava — e então você pensa nos detalhes que deixou passar. Com essa surpresa, as reviravoltas são muito mais surpreendentes.

Outra estratégia bastante comum é inserir vários flashbacks após uma reviravolta no enredo, fazendo com que o espectador fique com aquela sensação de "como eu não notei antes?". A cientista dá o exemplo do filme O Sexto Sentido. O famoso suspense de M. Night Shyamalan traz uma grande reviravolta no final: o personagem de Bruce Wyllis estava morto o tempo todo, e só o garotinho o via. Uma vez que sabemos disso, o longa traz algumas reprises, que fazem todo o sentido com a revelação. Por exemplo, sua esposa não o ignorou no restaurante — ela simplesmente achou que estava jantando sozinha.

E agora que você sabe, pode saborear esse momento com todos os detalhes que não tinha visto antes — e eles estão na sua frente. Afinal, se você já sabe o que vai acontecer, as pistas parecem muito óbvias. Pense em um enigma: se você sabe a resposta, ele vai parecer muito mais fácil do que de fato é.

Spoilers não estragam tudo

Ao contrário do que muitos pensam, saber um spoiler não vai estragar a narrativa. Voltemos a O Sexto Sentido: você provavelmente já viu o filme mais de uma vez, mesmo sabendo do final. Isso porque nosso cérebro também sente prazer em prever o que vai acontecer: você vai esperando detalhes, construindo uma narrativa consistente. Sentimos prazer em uma história que pareça fluida, porque ela é simples de se acompanhar. Sabendo o que vai acontecer, você não se preocupa em confundir trechos ou mesmo focar em partes que achou que eram importantes (mas não eram). Você pode se concentrar em seguir uma linha narrativa.

A verdade é que nós sentimos prazer na surpresa, sim. Mas também gostamos da zona de conforto. Pense em uma música que você não gostou da primeira vez que ouviu, mas depois mudou de ideia. É porque, uma vez que você a conheça, consegue acompanhar e ver sentido nela como um todo.

Claro que algumas pessoas de fato podem detestar spoilers. Se você gosta de desafios e quebra-cabeças, pode se irritar com uma linha contínua, achando-a entediante. Contudo, mesmo se você recebeu um spoiler que não gostaria, dê uma chance à produção: mesmo que você ache menos desafiador (e com pistas muito óbvias, já que você sabe o que vem a seguir) pode ser divertido ver como as coisas se constroem para chegar àquele ponto.

Este texto foi escrito por Verenna Klein via nexperts.

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