Black Mirror perde profundidade, mas mantém dilemas sociais na 4ª temporada

  • por Minha Série em 08/01/2018 - 12:29

Black Mirror voltou com seus novos episódios na última sexta-feira de 2017 na Netflix, estreando a quarta temporada da obra criada por Charlie Brooker. Os episódios mantêm a essência de trazer questionamentos sobre a relação humana na sociedade conforme os recursos tecnológicos que cada capítulo apresenta, criando uma analogia entre aquela trama e a vida real.

Algo que a própria série faz bastante nos seis capítulos do quarto ano é referenciar a si mesma. Ela revisita conceitos vistos anteriormente, reunindo conhecimento prévio para tornar a trama ainda mais envolvente. Esse aspecto fica evidente nos recursos tecnológicos já vistos ou em como uma trama se conecta à outra, criando um elo que pode servir até de contextualização para histórias anteriores.

Episódio 1 – USS Callister

Este capítulo é o que mais traz uma bagagem cultural externa para fazer total sentido, já que trabalha com vários temas. O assunto-base para a trama é a toxicidade, seja ela no trabalho ou no mundo virtual, algo que fica evidente conforme vemos o protagonista Robert Daly (Jesse Plemons) na empresa onde ele é menosprezado ou na tirania que ele constrói em sua versão do game Infinity.

Como o episódio é uma paródia de Star Trek, é necessário que você conheça um pouco da série clássica e dos longas recentes protagonizados por Zachary Quinto e Chris Pine, para compreender melhor o subtexto. Quando ele inicia com uma tela 3x4, é uma alusão ao programa televisivo dos anos 60, pelo qual Daly é tão obcecado. Quando o Infinity passa pela atualização, o game ganha um novo visual, que remete às adaptações feitas por J.J. Abrams na trilogia recente da franquia nas telonas.

Episódio 2 – Arkangel

O quão problemática seria a relação de uma mãe controladora que tenta manter a vida da filha da forma que ela deseja, vigiando-a por um tablet? Arkangel traz a discussão de como o controle parental pode ser nocivo para a relação familiar quando não há uma comunicação clara entre as pessoas, principalmente quando ambas as partes começam a mentir.

Com direção de Jodie Foster, o capítulo tem seu ponto positivo na dificuldade que Marie (Rosemarie DeWitt) tem para conseguir dar uma vida segura a Sara, mas sem a deixar dentro de uma bolha superprotetora, censurando-a de situações comuns da vida, como um simples cachorro latindo no quintal vizinho. O problema surge quando a trama perde a coerência em relação às atitudes da protagonista. Durante o clímax, a mãe acaba tomando uma decisão sobre a vida da filha sem contar para ela, entretanto se trata de uma medida perigosa que poderia fazer mal a quem ela tanto protegeu, o que faz parecer um furo de roteiro gigantesco fato de o tablet do sistema Arkangel estar tão longe da genitora no momento mais drástico da garota.

No final, fica a sensação de que a trama não conseguiu abordar corretamente a falta de diálogo entre mãe e filha. Ficamos com um desfecho chocante que poderia ser mais efetivo com segundos de silêncio das duas no mesmo cômodo sem saber como iniciar uma conversa difícil.

Episódio 3 – Crocodile

Este é o primeiro episódio que não aparenta ter qualquer dilema social real, ainda mais por causa de um elemento tecnológico na sociedade. As principais inovações eletrônicas que aparecem na trama são um mecanismo que recupera memória, utilizado por uma seguradora para garantir os direitos do cliente, e um caminhão de entrega de pizza — que deveria virar realidade.

A trama constrói o efeito dominó que acontece na vida de uma arquiteta renomada ao ser visitada por uma tragédia do passado, capaz de colocá-la em uma situação complicada no presente. A história começa com um ritmo lento e cresce a cada decisão brusca que a protagonista decide tomar, criando uma bola de neve em que ela acaba presa e incapaz de sair.

Novamente os problemas estão no roteiro do capítulo, já que ele abusa de situações que se tornam convenientes para a trama, mesmo que a narrativa as apresente anteriormente com recurso de foreshadowing, abusando de clichês e situações muito específicas.

Episódio 4 – Hang the DJ

O episódio mais bem escrito de toda a quarta temporada é o que mais soa humano, principalmente se você for adepto dos aplicativos de relacionamento. Com uma premissa de um sistema avançado de coleta de informações sobre pessoas de ambos os sexos, essa tecnologia analisa quem seria o seu par do próximo encontro e quanto tempo vocês teriam como um casal conforme essa experiência. O processo repete-se até que o parceiro definitivo seja encontrado.

A trama acompanha Amy (Georgina Campbell) e Frank (Joe Cole) em seus encontros, detalhando os pontos positivos e negativos que começam a aparecer nessas relações. Essa história com altas doses de romance começa a ficar mais profunda e apresenta um plot twist de ótima qualidade no seu terceiro ato, já que o roteiro havia entregue anteriormente as pistas de que essa reviravolta estava prestes a acontecer.

Episódio 5 - Metalhead

Este capítulo é o que mais traz uma sensação de novidade para a quarta temporada de Black Mirror, seja por sua história ou pelo uso exclusivo de preto e branco, o que pode causar uma estranheza ao espectador. A trama acompanha um grupo de humanos em busca de objetos armazenados em uma região isolada da sociedade. Entretanto, eles são considerados invasores pelos cachorros robóticos que fazem a segurança do local e começam a ser caçados até a morte.

O episódio não traz nenhuma discussão clara, apenas brinca com a ideia do que aconteceria se os humanos trocassem os cães reais que guardam o lar por versões mais equipadas, nada carismáticas e extremamente sanguinolentas. A partir dessa ideia, retirada dos GIFs envolvendo os robôs maltratados da empresa Boston Dynamics, a narrativa constrói um terror tecnológico que vai deixar você tenso em vários momentos.

Episódio 6 – Black Museum

O encerramento da quarta temporada é com o episódio que mais referencia a própria série, já que apresenta vários elementos tecnológicos de capítulos anteriores em um museu de crimes. Ele consegue criar novas histórias trágicas que giram em torno do conceito de testes científicos que envolvem a consciência humana.

O episódio apresenta a história de pessoas que tiveram suas vidas modificadas por causa de aparatos tecnológicos, porém sem um desfecho muito feliz. Conforme a visitante vai conhecendo o que há por trás de mais uma relíquia do museu, mais o espectador percebe como essas inovações se conectam na trama. O terceiro ato tenta criar um plot twist que pareça efetivo, mas no final só fica aquela sensação de ter acompanhado uma grande compilação de contos bizarros.

Entretanto, ele ressalta um ponto social sádico que não parece absurdo, levando em conta a atualidade.

Charlie Brooker mantém a essência de drama tecnológico que há em Black Mirror desde o seu início, mas não consegue ser tão surpreendente ou impactante quanto já foi, mesmo que os episódios ainda tenham qualidade. Enquanto anteriormente os capítulos mais emblemáticos eram aqueles que deixavam o espectador devastado com o desfecho, desde o terceiro ano as tramas mais bem desenvolvidas são as com elementos de romance, seja o já amado San Junipero ou o recente Hang the DJ.

Este texto foi escrito por Gustavo Rodrigues via N-experts.

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